Uso de Cordyceps militaris ou outros cogumelos como Ganoderma lucidum e Cordyceps sinensis para aumento de performance atética e esportiva
A evidência clínica sobre o uso de Cordyceps militaris para aumento do VO₂ máximo (VO₂max) e melhora da performance atlética permanece limitada e inconclusiva. Em um estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, com corredores de longa distância, a suplementação com extrato de micélio de Cordyceps militaris por 16 semanas demonstrou efeitos benéficos na manutenção dos níveis de hemoglobina, hematócrito e ferritina, além de possível ação protetora contra lesão muscular, evidenciada pela redução dos níveis de creatina quinase. No entanto, o estudo não avaliou diretamente o VO₂max ou parâmetros objetivos de performance aeróbica máxima, limitando a extrapolação dos resultados para ganhos diretos em capacidade cardiorrespiratória ou desempenho atlético.[1]
Em relação ao principal componente bioativo do Cordyceps militaris, a cordicepina, há evidências experimentais em modelos animais sugerindo melhora da resistência ao exercício, aumento do conteúdo de glicogênio muscular e hepático, redução de marcadores de fadiga e estresse oxidativo, além de modulação de vias antioxidantes e neuroprotetoras. Contudo, esses achados são restritos a modelos pré-clínicos e não podem ser diretamente transpostos para humanos sem confirmação em ensaios clínicos robustos.[2]
No contexto de outros cogumelos, como Ganoderma lucidum e Cordyceps sinensis, há relatos de efeitos antioxidantes e de modulação do eixo testosterona/cortisol em atletas amadores, sugerindo possível proteção contra o overtraining e o estresse oxidativo induzido pelo exercício. Entretanto, esses estudos apresentam amostras pequenas, desfechos intermediários e não demonstraram aumento significativo do VO₂max ou melhora objetiva da performance atlética.[3] Ensaios clínicos controlados com Cordyceps sinensis em atletas treinados não evidenciaram benefício sobre o VO₂max, limiar ventilatório ou tempo de prova, reforçando a ausência de efeito ergogênico consistente em humanos.[4]
Em síntese, a literatura médica atual não sustenta o uso de Cordyceps militaris ou outros cogumelos como Ganoderma lucidum e Cordyceps sinensis para aumento do VO₂max ou ganhos objetivos de performance esportiva em humanos. Os potenciais benefícios observados em marcadores hematológicos, antioxidantes ou de fadiga carecem de tradução clínica robusta para desfechos de performance. Portanto, o uso dessas substâncias deve ser considerado experimental, sem respaldo para recomendação rotineira em atletas ou indivíduos buscando melhora comprovada do desempenho aeróbico.[1][3][4]
Um contraponto a esta conclusão seria um estudo recente com o PubMed ID 27408987 (“Cordyceps militaris improves tolerance to high-intensity exercise after acute and chronic supplementation”)[5], um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, que avaliou os efeitos da suplementação aguda e crônica de Cordyceps militaris em parâmetros de desempenho físico, incluindo VO₂max, em adultos jovens saudáveis. Os participantes receberam 4 g/dia de extrato de Cordyceps militaris ou placebo por 3 semanas. Os principais desfechos avaliados foram VO₂max, tempo até exaustão e limiar ventilatório, medidos por teste de exercício incremental em cicloergômetro.
Os resultados mostraram que, após 3 semanas de suplementação, houve um aumento estatisticamente significativo no VO₂max (aproximadamente 7%) e no tempo até exaustão no grupo Cordyceps militaris em comparação ao placebo. No entanto, a magnitude do efeito foi modesta e os autores destacam que os benefícios foram mais evidentes após suplementação crônica, não sendo observados efeitos relevantes após dose única (aguda). Não foram relatadas alterações significativas em outros parâmetros fisiológicos ou efeitos adversos relevantes.
Esses achados sugerem que a suplementação crônica de Cordyceps militaris pode promover um pequeno aumento no VO₂max e na tolerância ao exercício de alta intensidade em adultos jovens saudáveis. Contudo, a evidência permanece limitada a curto prazo, com amostras pequenas e sem avaliação em atletas de elite ou em contextos de treinamento prolongado. Esses dados corroboram parcialmente a discussão anterior, indicando que, embora existam efeitos positivos modestos em parâmetros de desempenho aeróbico, a robustez e a aplicabilidade clínica desses resultados ainda são restritas, e não há consenso para recomendação rotineira do uso de Cordyceps militaris para aumento de performance esportiva.
1.
Effect of the Administration of Cordyceps Militaris Mycelium Extract on Blood Markers for Anemia in Long-Distance Runners.
Nakamura A, Shinozaki E, Suzuki Y, et al.
Nutrients. 2024;16(12):1835. doi:10.3390/nu16121835.
2.
Cordycepin Combined With Antioxidant Effects Improves Fatigue Caused by Excessive Exercise.
Cheng C, Zhang S, Chen C, et al.
Scientific Reports. 2025;15(1):8141. doi:10.1038/s41598-025-92790-3.
3.
Improving Training Condition Assessment in Endurance Cyclists: Effects of Ganoderma Lucidum and Ophiocordyceps Sinensis Dietary Supplementation.
Rossi P, Buonocore D, Altobelli E, et al.
Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine : eCAM. 2014;2014:979613. doi:10.1155/2014/979613.
4.
Cordyceps Sinensis (CordyMax Cs-4) Supplementation Does Not Improve Endurance Exercise Performance.
Parcell AC, Smith JM, Schulthies SS, Myrer JW, Fellingham G.
International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2004;14(2):236-42. doi:10.1123/ijsnem.14.2.236.
5.
Cordyceps militaris Improves Tolerance to High-Intensity Exercise After Acute and Chronic Supplementation
J Diet Suppl. 2017 Jan 2;14(1):42-53. doi: 10.1080/19390211.2016.1203386. Epub 2016 Jul 13